A semana de 31 de agosto a 4 de setembro de 2026 foi de forte apetite ao risco na bolsa brasileira. O Ibovespa saltou da região de 175,7 mil pontos, no fechamento anterior, para cerca de 185,1 mil pontos, um ganho semanal próximo de 5%, impulsionado por um pregão de alta de mais de 3% na quarta-feira (02/09) e por um pano de fundo de expectativa de corte da Selic, PIB do segundo trimestre no radar e alívio nos juros longos. No acumulado do ano, o índice sobe cerca de 15%. Nesse ambiente construtivo, três blue chips do setor financeiro concentraram os maiores ganhos da carteira acompanhada: o Banco do Brasil (BBAS3), como incumbente estatal descontado em início de recuperação de rentabilidade; a B3 (B3SA3), infraestrutura central do mercado de capitais, com receita recorrente e margens altíssimas; e o Itaú Unibanco (ITUB4), o banco privado líder, sinônimo de qualidade e proventos elevados. O filtro é o de sempre: entre as principais ações da lista, o foco recai nas três maiores valorizações do período, com os fundamentos a sustentar a história e o gráfico semanal a confirmar, ou não, a tendência.
Dentro da amostra de dez ações (PETR4, VALE3, ITUB4, BBAS3, B3SA3, BBDC4, EMBR3, SBSP3 e PRIO3), o trio de bancos e bolsa liderou o impulso de curto prazo. O Banco do Brasil foi o destaque absoluto, com alta de aproximadamente 7,8% na semana, de cerca de R$ 20,82 para a região de R$ 22,5. A B3 avançou por volta de 6,3%, de R$ 16,30 para R$ 17,3, e o Itaú subiu cerca de 6,0%, de R$ 39,52 para perto de R$ 41,9. Com nomes ligados a commodities e a setores defensivos avançando de forma mais moderada, a semana foi essencialmente de reprecificação de bancos e da própria bolsa diante de um cenário de juros mais baixos à frente.
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Banco do Brasil (BBAS3): incumbente estatal descontado em início de recuperação
O Banco do Brasil é um banco múltiplo de controle estatal e um dos maiores do país, com forte presença em varejo, crédito corporativo, meios de pagamento, seguros e, sobretudo, agronegócio, segmento que responde por quase metade da carteira de crédito. Essa exposição rural é, ao mesmo tempo, o grande diferencial e o principal fator de risco do case: foi a inadimplência do agro, agravada por eventos climáticos e pela entrada em vigor da Resolução CMN nº 4.966/2021, que exigiu reforço de provisões e pressionou a rentabilidade ao longo de 2025 e do início de 2026, abrindo o desconto de valuation que hoje caracteriza a ação.
Os números confirmam o ciclo de pressão, mas também os primeiros sinais de inflexão. Em 2025, o banco reportou lucro líquido ajustado de cerca de R$ 20,7 bilhões, com retorno sobre o patrimônio (RSPL) de 11,4%, bem abaixo dos padrões históricos e do lucro contábil de R$ 29 bilhões de 2024, tendo o ROE trimestral chegado a rondar 8% no meio do ciclo, o pior entre os grandes bancos. A virada começou a aparecer no fim do período: o lucro ajustado do 4T25 somou R$ 5,7 bilhões, alta de 51,7% sobre o 3T25, e, no 2T26, o banco lucrou cerca de R$ 3,9 bilhões, superando as projeções, ainda que a inadimplência siga no radar. Nos múltiplos, BBAS3 negocia com P/L ao redor de 8x a 10x e P/VP próximo de 0,69x, ou seja, abaixo do valor patrimonial (VPA em torno de R$ 32), com dividend yield de cerca de 3% nos últimos 12 meses (R$ 0,65 a R$ 0,68 por ação) e payout ao redor de 30%, reflexo da maior prudência de capital.
Um gráfico semanal de forte reversão, com o preço recuperando a região de R$ 22 e a média longa logo acima como próxima resistência.

No gráfico semanal, BBAS3 desenha uma vela de forte alta que resgata o papel do fundo recente, próximo de R$ 18, e o recoloca em torno de R$ 22,5, depois da correção que veio de máximas acima de R$ 30, em meados de 2025. O detalhe técnico relevante é que a cotação bate exatamente na média móvel longa, ao redor de R$ 24, que passa a ser a primeira resistência estrutural a vencer para confirmar a virada. O SAR ainda aparece acima do preço, sinal de que a reversão é incipiente, enquanto o MACD engata uma inflexão de baixo para cima, com o histograma retomando o campo positivo - leitura de melhora de momentum em fase inicial, e não de tendência de alta consolidada. A faixa de R$ 23 a R$ 24 concentra as resistências imediatas; o suporte fica em R$ 20 e, mais abaixo, em R$ 18.
B3 (B3SA3): infraestrutura de mercado com receita recorrente e margens elevadas
A B3 é a principal infraestrutura do mercado financeiro brasileiro, resultado da fusão, em 2017, entre a BM&FBOVESPA e a Cetip. Opera de forma verticalmente integrada em negociação, compensação, liquidação, depósito e registro de ações, derivativos, câmbio e renda fixa, além de atuar como contraparte central garantidora e de oferecer serviços de dados, tecnologia e infraestrutura para a jornada de crédito. Esse modelo combina exposição pró-cíclica à atividade de mercado de capitais com receitas recorrentes de pós-negociação, listagem e dados, o que confere resiliência e margens típicas de um negócio com altas barreiras de entrada. A companhia vem diversificando receitas de forma agressiva, com aquisições como as da Shipay (pagamentos e Pix) e da CRDC e o lançamento de produtos como Índice Tesouro Selic, Futuro de Ouro e Futuro de Bitcoin.
No 3T25, a receita total atingiu R$ 2,8 bilhões, alta de 2% em doze meses, com EBITDA recorrente de R$ 1,73 bilhão e margem de 69,5%, evidenciando forte geração de caixa mesmo com volumes mais fracos em renda variável e derivativos. O lucro líquido recorrente ficou em R$ 1,26 bilhão (+2,6% em base anual), com lucro por ação de R$ 0,24, alta de quase 12%. A companhia devolveu R$ 1,3 bilhão aos acionistas no trimestre, sendo R$ 875 milhões em recompras e R$ 402 milhões em juros sobre capital próprio. O ponto de atenção é o valuation: mesmo sendo um ativo de qualidade, a B3 negocia com P/L ao redor de 16x, P/VP próximo de 4,7x e dividend yield dos últimos 12 meses em torno de 4,3%, com projeções de mercado apontando yield mais alto à frente. É uma tese de crescimento de qualidade, não de barganha contábil.
Um gráfico semanal em tendência de alta, com o preço bem acima da média longa e o momentum retomando força.

No semanal, B3SA3 fecha em torno de R$ 17,4, em vela de alta que aproxima o papel das máximas do movimento de retomada iniciado após a correção que levou a ação da região de R$ 20, no começo de 2026, até cerca de R$ 14. O preço opera bem acima da média móvel longa, ao redor de R$ 13, e o SAR volta a se posicionar abaixo da cotação, dupla confirmação de tendência estrutural comprada. O MACD reforça a leitura, com as linhas cruzando para cima e o histograma de volta ao positivo. A resistência imediata está na faixa de R$ 18, com os topos de 2026 perto de R$ 20 como alvo mais ambicioso; o suporte relevante fica em R$ 15 a R$ 16 e, mais abaixo, junto à média longa, em R$ 13.
Itaú Unibanco (ITUB4): o banco de qualidade, com rentabilidade e proventos no topo do setor
O Itaú Unibanco é o maior banco privado do Brasil e um dos maiores da América Latina, com atuação robusta em varejo, atacado, banco de investimento (Itaú BBA), cartões, seguros, previdência e gestão de recursos. O grande diferencial competitivo é a combinação de escala, diversificação de receitas e disciplina de crédito, que sustenta um índice de eficiência abaixo de 40% e permite ao banco atravessar ciclos com rentabilidade acima da média dos pares. A carteira de crédito supera R$ 1,49 trilhão e cresce de forma controlada, com destaque para pessoa física e pequenas e médias empresas.
Em 2025, o Itaú entregou lucro líquido recorrente de R$ 46,8 bilhões, crescimento de 14% sobre 2024 e um dos maiores resultados já reportados por um banco brasileiro. A rentabilidade impressiona: o ROE fechou o ano em 23,4% e chegou a 24,4% no 4T25, o maior nível em uma década, com índice de eficiência de 38,9% e inadimplência acima de 90 dias estável em 1,9%. O lucro do 4T25 foi de R$ 12,3 bilhões (+13,2%), e o guidance para 2026 aponta continuidade, com casas como o BTG projetando lucro próximo de R$ 51 bilhões. A contrapartida da qualidade é o preço: ITUB4 negocia com P/L ao redor de 10x e P/VP próximo de 2,1x, prêmio relevante frente ao Banco do Brasil, mas coerente com um ROE muito superior. O dividend yield dos últimos 12 meses fica em torno de 7,5%, com proventos de cerca de R$ 3,24 por ação e payout acima de 70%.
Um gráfico semanal em recuperação, com o preço muito acima da média longa e o SAR como resistência imediata.

No gráfico semanal, ITUB4 recupera a faixa de R$ 41 a R$ 42 depois de trabalhar perto de R$ 38 em meados de 2026, correção que se seguiu ao topo próximo de R$ 50 no começo do ano. A leitura estrutural segue claramente positiva: o preço opera muito acima da média móvel longa, na casa de R$ 31 a R$ 32, o que preserva a tendência de alta de médio prazo. O ponto de atenção de curto prazo é o SAR, ainda logo acima do preço, na região de R$ 44, indicando resistência imediata cuja superação abriria espaço para a retomada rumo aos R$ 46 a R$ 50. O MACD trabalha perto da linha zero, com leve melhora de momentum, ainda sem a força vista no gráfico de B3SA3. A zona de R$ 44 é a resistência a vencer; o suporte relevante está em R$ 38. Com dividend yield elevado, muitos investidores usam as regiões de suporte para reforçar posição de longo prazo.
Conclusão
A semana de 31 de agosto a 4 de setembro consolidou uma leitura clara: com o Ibovespa em máximas do ano e a expectativa de juros mais baixos à frente, o dinheiro fluiu para o setor financeiro, e cada uma das três líderes conta uma história diferente. O Banco do Brasil é a aposta em recuperação, com fundamentos ainda pressionados pelo agro, mas com o primeiro sinal de inflexão do ROE e um valuation abaixo do valor patrimonial, desde que o gráfico confirme a virada acima da média longa. A B3 é a infraestrutura de qualidade, com receita recorrente, margens altíssimas e retorno de capital consistente, negociando com prêmio e já em tendência de alta. O Itaú é o banco de excelência, com rentabilidade recorde, proventos elevados e execução previsível, com o gráfico construtivo, mas esbarrando em resistência de curto prazo. Enquanto o semanal respeitar os suportes de cada movimento - R$ 20 em BBAS3, R$ 15 a R$ 16 em B3SA3 e R$ 38 em ITUB4 -, as três teses seguem vivas; a perda desses pisos é que exigiria um novo ponto de entrada.
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